Avoou: Eu tava lá...

Avoou: Eu tava lá... é a história de como me tornei contadora de histórias.

Um conto ilustrado em livro e tapete avoador das histórias de boca mais contadas em vinte anos de trajetória.

Para ouvi-las, clique nos ícones abaixo:

Os áudios foram gravados e mixados por Guilherme Sapotone na Casa Redonda, em Carapicuíba, e no Tambo Estúdio, em Cotia – SP Brasil.

As cantigas “Dodó Catibiribó” e “Constança” foram gravadas no Estúdio Doze, Granja Viana – SP Brasil.

As Crianças que participaram dessa brincadeira: Alice Roji (aos 6 e mais tarde aos 12 anos), Bruno Carrijo Gerbelli Ceroni (5), Clara Brum (7), Dora Velasco de Almeida (5), Francesco Carraro Busacca (3), Francisco Xawa Cardoso de Souza (5), (Fredinho) Frederico Abelhão Takata (4), Frederico Fromm Cavalcanti de Araujo (3), Isabela Maria Carraro Busacca (5), (Belinha) Isabela Rodrigues Silva (6), Jéssica Molliet Davidsohn (5), João Pedro Homem de Melo Omaki (7), João Simon Tenucci (7), Luca Barbieri Wahba (4), Lucas Figueiró Flexa (4), Maitê Torres Haberkorn (3), Manuela Miguel Martinucci (6), Maria Clara Cuoco Gervatauskas (6), Nina Torres Haberkorn (5), Pedro Yuji Lopes Motomura (4), Roberta Storch Farah (5), (Tom) Tomas Quintanilha Sampaio (5), Tomé Somlo Siqueira (aos 2 e mais tarde aos 8 anos), Vitor Storch Farah (5) e Yan Novak Bazzoni (6).

Inicialmente intitulada "Alvo: Uma história de rendas e retalhos", a narrativa nasceu em 1998, a partir de um estudo proposto por Regina Machado. Eu cursava então sua disciplina Fundamentos teóricos poéticos do ensino da Arte, durante Especialização em Arte-Educação na ECA/USP. A proposta do exercício, batizado por ela como “Alvo”, era desenvolver um diálogo entre perguntas essenciais e imagens. Nesse processo, as questões que fui registrando e os desenhos, colagens e bordados que brotavam através delas despertando novas perguntas, estabeleceram surpreendente conversa. Aos poucos, preciosas memórias de infância foram se revelando. Recordei meus sonhos recorrentes de menina, nos quais por vezes voava, por outras tantas respirava dentro d’água. Percebi com clareza como havia crescido com essa saudade, sonhando viver de novo a sensação primeira, mas quanto mais eu buscava, mais aumentava minha coleção de retalhos. E a saudade enredava.

Até que comecei a contar histórias e esta arte rendeira veio me costurando por dentro, reunindo minhas experiências. As narrativas de tradição oral me fazem voar além, e ao mesmo tempo mergulhar cada vez mais fundo nos enredos dentro de mim. Mergulheiavoando nelas e foi aí que encontrei dois mitos de criação, ou talvez os mitos tenham me encontrado.

Segundo a cultura Guarani, cujas origens remontam às raízes Tupi-Guarani, o primeiro ser humano era leve, como se fosse feito de vento luminoso, algo assim como um Ser Pássaro Ancestral. Por sua vez, o povo Karajá preserva nas profundezas de sua sabedoria a memória cultural de que veio do Espírito das Águas, da mutação dos Peixes-Aruanã. Coisas simples de contar, mas estranhas de entender. Na herança espiritual desses mistérios, eu me reconheci. Em profunda e leve alegria de pertencimento recordei a Criança em mim, o mito pessoal de criação, sonhado e re-sonhado na infância. No mesmo instante pesquei o poema, espécie de epílogo esvoaçante da narrativa que, em 2003, renomeada "Avoou", passou a integrar o espetáculo "Avoou: Contos Brasileiros", do projeto Dançando Histórias.

Segui. Avoando alto e mergulhando fundo no imaginário dos contos, em busca do trançado de minha própria história, pois não importa se somos adultos ou crianças, contar e ouvir histórias são formas de brincar, de criar vínculos.

Assim fui percebendo que é possível estar lá no Tempo sem tempo do Era uma vez, contando histórias tradicionais como se fossem histórias de vida. Inspirada na presença dos contadores populares que se colocam dentro do conto quando dizem: Eu tava lá, minha gente! Aprendendo com as histórias brincadas pelas crianças no eterno Faz de conta que eu era...

A maneira como uma criança indaga coisas do começo da vida, traduzindo o mundo por meio de histórias, metáforas, imagens, é muito próxima à forma com que as diversas tradições explicam as origens do universo em suas narrativas míticas. As crianças pequenas e as culturas tradicionais são cúmplices do Mistério. Ainda conseguem enxergar através dos véus que dividem as realidades, e assim nos guiam até lá. Pescando na fonte de um mesmo fundo rendado, elas nos ajudam a recordar: trazer de volta ao coração.

Avoou: Eu tava lá…, atual título dessa aventura, é a história de como me tornei uma contadora de histórias, ou melhor, de como recordei a primeira parte da história. Nas palavras de Julia, 7 anos: Foi quando você se reencriançou, se encantou de novo pra ser criança! Sim, eu tava lá…

E desde 2013 Graziella Mattar também tava lá, onde o céu encontra o mar e o mar encontra o céu, imaginando no horizonte a história em sonho ilustrado. Eu preciso contar um segredo para vocês: a beleza das ilustrações é muito maior do que eu poderia sonhar! Acho que a Gra se reencriançou e foi pescar imagens no fundo rendado do lado de lá...

Avoou: Eu tava lá... envolve as ilustrações rendadas por ela e também aquelas imaginadas por cada um durante o mergulho nos áudios que acompanham o livro. Essa ideia me belisca faz tempo, porque nunca esqueci a experiência de escutar as histórias da coleção de disquinhos em minha vitrola cor de laranja, quando menina. Fecho os olhos e posso estar lá novamente, agora.

A Imaginação, ou, na definição de uma criança, a capacidade de assistir na tela de dentro, é profundamente favorecida pela arte de contar histórias. As histórias de boca, como dizem as crianças e os contadores tradicionais, permitem o exercício interno de ver criativamente, estabelecendo pontes entre palavras e imagens.

Foi a memória dessa escuta criativa que moveu a gravação. As histórias estão hospedadas em plataforma virtual, criada e animada por Cecilia Schiavo, e podem ser ouvidas através do leitor de QR Code. Deixo aqui uma dica: mergulhar nelas de olhos fechados faz a gente avoar mais alto!

Iniciamos o processo de gravação e edição em 2011, em parceria com Guilherme Sapotone, profissional da área e pai de alunos da Casa Redonda, espaço de educação infantil onde trabalhei por 12 anos. Pretendíamos gravar um CD de contos que chegasse o mais próximo possível da experiência em si, do eu tava lá dentro das histórias de boca. Buscando preservar a espontaneidade da interação, fomos costurando retalhos de áudios gravados ao vivo enquanto contava histórias na escola e outros captados em estúdio. Selecionamos os contos preferidos, e as crianças participaram dessa escolha. Músicos parceiros vieram enriquecer o trabalho. Da brincadeira entre contadora, crianças, músicos e editor de som (incrível rendeiro!) nasceram 11 histórias de boca.

O projeto ficou suspenso por alguns anos, avoando apenas em sonho e minha filha Dora nasceu, avoando do sonho para o lado de cá das cortinas. No meio do caminho, meu reconto “Maria Sabida e João do Uia” foi publicado pela editora Panda Books e o áudio dessa história, que fazia parte do projeto inicial, avoou para acompanhar o livro ilustrado por Sylvia Vivanco. Da mesma forma, o conto “A Véia da Gudéia” saiu da moita, esticando uma perna e encolhendo a outra, querendo virar livro também, e junto com ele o áudio da história. Mesmo assim, a personagem está presente na fala de várias crianças que mencionam a Véia durante outros contos, porque tudo se encontra avoando no imaginário rendado do lado de lá.

Com muita alegria finalizamos os áudios em 2018, agora integrados a este livro. Revisitamos as narrações que continuaram sendo contadas de boca em diversos espaços e, claro, viveram transformações, inserimos a participação de crianças que naquela época nem eram nascidas, e de músicos que também chegaram depois. Nenhuma das histórias adquiriu a forma registrada em áudio sem que antes tivesse sido contada e recontada para e com as crianças.

Avoa!!!

© 2016 Cristiane Velasco. Todos os direitos reservados.

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